Acusado de Violência Doméstica: Como se Defender em um Pedido de Medida Protetiva

Introdução: Uma Realidade Jurídica Complexa e Urgente

Receber uma intimação sobre um pedido de medida protetiva de urgência é uma das situações mais angustiantes e impactantes que um homem pode enfrentar. Fundamentada na Lei Maria da Penha, essa ferramenta legal foi criada para proteger mulheres em situação de vulnerabilidade, uma causa nobre e necessária. No entanto, o sistema, por vezes, opera de forma tão célere que a presunção de inocência, um pilar fundamental do nosso direito, pode parecer fragilizada. Uma acusação, mesmo que ainda não comprovada, desencadeia consequências imediatas e severas: o afastamento do lar, a restrição de contato com filhos e a mancha na reputação. Este artigo não busca questionar a validade da lei, mas sim orientar o homem que se vê injustamente acusado, explicando como funciona o processo, quais são seus direitos e como uma defesa em medida protetiva para o acusado pode ser construída de forma técnica e eficaz.

Como o Processo Funciona na Prática

Entender o fluxo do processo é o primeiro passo para uma defesa estratégica. Muitas vezes, o acusado só toma conhecimento da situação quando um oficial de justiça bate à sua porta. O procedimento geralmente segue estas etapas:

1. O Pedido da Suposta Vítima

Tudo começa quando a suposta vítima se dirige a uma delegacia de polícia, geralmente uma Delegacia da Mulher, e narra uma situação de violência (física, psicológica, moral, patrimonial ou sexual). Com base apenas nesse depoimento, a autoridade policial elabora um relatório e envia o pedido de medida protetiva ao Poder Judiciário.

2. A Decisão Judicial Inicial

O juiz tem um prazo de 48 horas para analisar o pedido. Nessa fase, a decisão é tomada inaudita altera pars, ou seja, sem ouvir o acusado. O magistrado se baseia exclusivamente no relato da suposta vítima e nos documentos apresentados por ela. Se entender que há indícios mínimos de risco, ele concede as medidas, que podem incluir:

  • Afastamento do lar;
  • Proibição de se aproximar da suposta vítima e de seus familiares, mantendo uma distância mínima;
  • Proibição de qualquer tipo de contato (telefone, mensagens, redes sociais);
  • Restrição ou suspensão de visitas aos filhos.

3. A Intimação e o Início da Defesa

Uma vez concedida a medida, um oficial de justiça irá intimar o acusado, entregando a ele uma cópia da decisão. A partir desse momento, as restrições passam a valer imediatamente. É crucial entender que, a partir da juntada do mandado de intimação no processo, começa a contar o prazo para apresentar a defesa.

Direitos e Deveres do Acusado

Mesmo diante de uma decisão desfavorável inicial, o acusado possui direitos garantidos pela Constituição. É fundamental conhecê-los para não agravar a situação.

Seus Direitos Fundamentais

  • Direito ao Contraditório e à Ampla Defesa: Você tem o direito de apresentar sua versão dos fatos, contestar as alegações e produzir todas as provas que demonstrem sua inocência.
  • Presunção de Inocência: Até que se prove o contrário em um processo criminal com sentença final, você é considerado inocente. A medida protetiva não é uma declaração de culpa.
  • Acesso aos Autos: Você ou seu advogado têm o direito de acessar integralmente o processo para conhecer todas as acusações e provas apresentadas contra você.
  • Assistência de um Advogado: É seu direito ser representado por um advogado, que atuará tecnicamente para garantir que o processo seja justo.

Seu Principal Dever: Cumprir a Ordem Judicial

Este é o ponto mais crítico. Mesmo que a medida seja injusta, descumpri-la é crime, previsto no artigo 24-A da Lei Maria da Penha. A pena para o descumprimento é de detenção de 3 meses a 2 anos. Portanto, a primeira e mais importante orientação é: cumpra rigorosamente todas as determinações judiciais. A sua discordância deve ser manifestada dentro do processo, por meio da sua defesa técnica.

Provas e Elementos Utilizados na Defesa

A defesa não pode se basear em meras negações. É preciso construir um conjunto de provas que enfraqueçam a narrativa da acusação e fortaleçam a sua versão. As provas mais comuns são:

  • Provas Digitais: Mensagens de texto, áudios de WhatsApp, e-mails e postagens em redes sociais que possam contradizer a acusação, demonstrar um contexto diferente para os fatos ou até mesmo revelar a motivação indevida para o pedido.
  • Provas Documentais: Comprovantes de viagens, recibos, extratos bancários, contratos ou qualquer documento que possa provar que você não estava no local alegado ou que a situação patrimonial descrita não corresponde à realidade.
  • Provas Testemunhais: Pessoas que possam depor a seu favor, como vizinhos, amigos, familiares ou colegas de trabalho. Elas podem atestar sobre seu comportamento, confirmar um álibi ou esclarecer fatos relevantes.

Erros Comuns que Devem Ser Evitados a Todo Custo

No calor do momento, muitos homens cometem erros que prejudicam irremediavelmente sua defesa. Fique atento:

  1. Tentar Contato com a Suposta Vítima: Achar que uma conversa "para resolver as coisas" vai ajudar é o erro mais grave. Isso é descumprimento direto da medida e pode levar à sua prisão preventiva.
  2. Expor o Caso nas Redes Sociais: Desabafar publicamente ou tentar desqualificar a outra parte online só gera mais provas contra você e demonstra descontrole emocional, o que será mal visto pelo juiz.
  3. Ignorar a Intimação: Não apresentar defesa no prazo legal fará com que os fatos alegados pela suposta vítima sejam considerados verdadeiros pelo juízo, tornando a medida protetiva definitiva e dificultando a reversão.
  4. Falar com a Polícia Sem a Presença de um Advogado: Em depoimento, qualquer palavra mal colocada pode ser interpretada de forma negativa e usada contra você no futuro processo criminal que geralmente corre em paralelo.

Boas Práticas Jurídicas: Uma Defesa Estratégica

Uma defesa técnica e bem planejada é sua melhor ferramenta. Um advogado especialista irá adotar práticas como:

  • Análise Criteriosa do Processo: Examinar cada detalhe da acusação para encontrar inconsistências e fragilidades.
  • Coleta Rápida de Provas: Orientar você sobre como preservar todas as provas a seu favor antes que elas se percam.
  • Elaboração da Defesa Escrita: Apresentar uma peça processual robusta, rebatendo ponto a ponto as acusações e juntando todas as provas coletadas.
  • Pedido de Revogação ou Readequação: Com base nas provas, o advogado pode solicitar ao juiz que a medida seja revogada ou, ao menos, flexibilizada.

Quando Procurar um Advogado Especialista?

A resposta é: imediatamente. Assim que você receber a intimação. Não se trata de um simples problema de relacionamento; é um procedimento judicial com potencial para se transformar em um processo criminal. As consequências afetam sua liberdade, seu patrimônio, seu direito de conviver com seus filhos e sua reputação. Um advogado especialista em defesa do acusado em casos de medida protetiva conhece os trâmites, a forma como os juízes costumam decidir e as melhores estratégias para proteger seus direitos desde o primeiro momento. Deixar para depois pode significar a perda de prazos cruciais e a consolidação de uma injustiça.

Conclusão: Protegendo Seus Direitos e Seu Futuro

Ser alvo de uma medida protetiva é uma experiência avassaladora, mas é fundamental manter a calma e agir de forma racional e estratégica. A lei existe para proteger, mas também garante a você o direito a uma defesa justa. Cumprir a ordem judicial, evitar erros primários e, principalmente, constituir uma defesa técnica são os pilares para atravessar essa fase. Se você foi notificado de uma medida protetiva, entenda que cada momento é crucial. A busca por orientação jurídica qualificada não é apenas uma opção, mas uma necessidade para garantir que seus direitos sejam defendidos e que a verdade prevaleça. Proteger sua reputação, liberdade e futuro começa com uma defesa técnica e estratégica.