Medida Protetiva: Entenda o que é, como funciona e seus direitos

O que é uma Medida Protetiva de Urgência?

A medida protetiva de urgência é uma ferramenta jurídica criada pela Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06) com o objetivo principal de proteger, de forma rápida, a integridade física, psicológica, sexual, patrimonial e moral de uma mulher em situação de suposta violência doméstica ou familiar. Trata-se de uma ordem judicial que impõe uma série de obrigações e restrições ao suposto agressor para evitar que o risco de violência se concretize ou continue.

Embora seja um instrumento essencial para a proteção de vítimas reais, o seu procedimento de concessão, extremamente rápido e muitas vezes baseado apenas na palavra da suposta vítima, pode abrir margem para acusações injustas. Compreender medida protetiva o que é e como ela funciona é o primeiro passo para que um homem, acusado indevidamente, possa exercer seu direito de defesa de forma eficaz e responsável.

Como o Processo de Medida Protetiva Funciona na Prática?

O processo é desenhado para ser célere, priorizando a proteção. Isso significa que, em seu início, ele não segue o rito comum de um processo judicial, onde ambas as partes são ouvidas antes de qualquer decisão.

O Pedido na Delegacia de Polícia

Tudo começa quando a suposta vítima procura uma Delegacia da Mulher ou uma delegacia comum para registrar um Boletim de Ocorrência. Nesse momento, ela narra os fatos e, se desejar, solicita as medidas protetivas. O delegado colhe o depoimento e encaminha o pedido ao Poder Judiciário em até 48 horas.

A Decisão do Juiz: Medida Protetiva Pode ser Concedida sem Prova?

Sim. Esta é uma das dúvidas mais comuns e um ponto crucial. O juiz tem 48 horas, a partir do recebimento do pedido, para decidir sobre a concessão da medida. Nessa fase, a análise é feita com base nos elementos apresentados pela polícia, que geralmente se resumem ao depoimento da suposta vítima. O juiz não ouve o suposto agressor antes de decidir. Esse procedimento é chamado de inaudita altera pars, ou seja, "sem ouvir a outra parte".

A lei permite essa ação unilateral porque entende que a demora para ouvir o acusado poderia colocar a vida da vítima em risco. A decisão se baseia nos indícios de que há uma situação de perigo (fumus boni iuris e periculum in mora). Portanto, a medida pode ser deferida apenas com a palavra da alegada vítima, sem a necessidade de fotos, vídeos ou testemunhas nesse primeiro momento.

A Intimação do Acusado

Uma vez que o juiz concede a medida, um Oficial de Justiça irá localizar o suposto agressor para entregar a ordem judicial, chamada de mandado de intimação. A partir do momento em que ele assina o mandado, todas as restrições entram em vigor e devem ser cumpridas rigorosamente, sob pena de consequências graves.

Direitos e Deveres das Partes Envolvidas

Após ser intimado, o acusado passa a ter deveres imediatos e direitos que precisam ser exercidos com a ajuda de um advogado.

Deveres e Consequências: O Descumprimento Gera Prisão?

Sim, e de forma direta. O descumprimento de qualquer uma das medidas protetivas impostas é crime, previsto no artigo 24-A da Lei Maria da Penha. A pena é de 3 meses a 2 anos de detenção. Isso significa que, se o acusado for flagrado violando a ordem (por exemplo, se aproximando da suposta vítima ou enviando uma mensagem), ele pode ser preso em flagrante.

As medidas mais comuns são:

  • Afastamento do lar: O acusado é obrigado a sair da casa onde vivia com a suposta vítima.
  • Proibição de aproximação: Manter uma distância mínima determinada (ex: 200, 300 ou 500 metros).
  • Proibição de contato: Não poder contatar a suposta vítima por nenhum meio: telefone, WhatsApp, redes sociais, e-mail ou até mesmo por intermédio de terceiros (amigos, familiares).

Direitos do Acusado

Apesar da decisão inicial ser unilateral, o acusado tem o pleno direito de se defender. Os principais direitos são:

  • Apresentar defesa: Contestar as alegações e a necessidade da medida.
  • Produzir provas: Juntar documentos, áudios, vídeos e apresentar testemunhas que possam desmentir a acusação.
  • Ser assistido por um advogado: Essencial para garantir que todos os procedimentos legais sejam seguidos.
  • Solicitar a revogação da medida: Pedir ao juiz que a ordem seja retirada, demonstrando que ela é injusta ou desnecessária.

Provas e Elementos de Defesa em Casos de Acusações Injustas

A defesa deve focar em desconstruir a narrativa da acusação e demonstrar a ausência de risco. As provas mais eficazes incluem:

  • Testemunhas: Pessoas que possam atestar o comportamento do acusado ou a dinâmica do relacionamento, contradizendo a versão da suposta vítima.
  • Provas digitais: Prints de conversas de WhatsApp, e-mails ou posts em redes sociais que mostrem um contexto diferente do alegado, como um relacionamento amigável no período da suposta agressão ou até mesmo provocações ou ameaças por parte da suposta vítima.
  • Documentos: Registros de álibis (passagens, recibos, registros de ponto) que provem que o acusado não estava no local dos fatos alegados.
  • Gravações: Áudios ou vídeos, obtidos de forma lícita, que possam revelar a verdade sobre a situação.

Erros Comuns que Prejudicam a Defesa e Devem ser Evitados

No calor do momento, muitos homens acusados cometem erros que podem transformar uma medida protetiva injusta em um processo criminal grave e até mesmo em uma prisão.

  1. Descumprir a ordem, mesmo que minimamente: Achar que "só uma mensagem para me explicar" ou "passar na rua de longe" não tem problema é o erro mais grave. Qualquer violação é crime.
  2. Tentar contato através de terceiros: Pedir para um amigo ou familiar levar um recado é considerado descumprimento.
  3. Reagir publicamente nas redes sociais: Fazer postagens sobre o caso pode ser interpretado como pressão psicológica ou ameaça indireta, fortalecendo a necessidade da medida.
  4. Não constituir um advogado imediatamente: Achar que a situação se resolverá sozinha ou que a medida "vai caducar" é um erro. A defesa precisa ser apresentada formalmente no processo.

Boas Práticas: Medida Protetiva Pode ser Retirada?

Sim, a medida protetiva pode e deve ser retirada quando se prova sua desnecessidade ou injustiça. O caminho para isso é a defesa técnica.

Apresentação do Pedido de Revogação

O advogado irá preparar uma petição detalhada, chamada de "Pedido de Revogação de Medida Protetiva" ou "Contestação". Neste documento, ele irá expor os fatos sob a ótica da defesa, atacar as falsas alegações e apresentar todas as provas coletadas que demonstram que o cliente não representa um risco.

Demonstração da Ausência de Urgência

A defesa deve focar em mostrar ao juiz que o periculum in mora (o perigo na demora) que justificou a medida não existe. Isso pode ser feito provando que a relação já havia terminado pacificamente, que as alegações são contraditórias ou que o comportamento da suposta vítima após o pedido é incompatível com o de alguém que teme por sua segurança.

Audiência de Justificação

O advogado pode solicitar a realização de uma audiência, onde o juiz poderá ouvir ambas as partes e suas testemunhas. Este é um momento crucial para que o acusado possa, finalmente, apresentar sua versão dos fatos diretamente ao magistrado.

Quando Procurar um Advogado Especialista?

A resposta é: imediatamente após receber a intimação. Não espere. Não tente resolver sozinho. Um advogado especialista em direito criminal, com foco na defesa em casos de violência doméstica, compreende as nuances da Lei Maria da Penha e os procedimentos específicos das Varas de Violência Doméstica.

Ele saberá como agir rapidamente para coletar as provas corretas, apresentar a defesa no prazo, orientar o cliente sobre como se comportar para não cometer erros e, principalmente, construir a argumentação jurídica mais forte para buscar a revogação da medida injusta, evitando que ela evolua para um processo criminal por lesão, ameaça ou outros delitos.

Conclusão: Agindo com Estratégia e Respeito à Lei

Receber uma intimação de medida protetiva baseada em acusações falsas é uma situação devastadora. Contudo, o desespero não pode guiar suas ações. A lei, que pode parecer injusta no primeiro momento, também garante o seu direito à ampla defesa e ao contraditório.

O caminho para reverter uma medida protetiva injusta não é através do confronto ou da desobediência, mas sim através de uma defesa técnica, estratégica e bem fundamentada. Se você se encontra nesta situação, o passo mais importante é cumprir rigorosamente a ordem judicial e procurar, sem demora, o suporte de um advogado especialista para defender seus direitos. Uma atuação jurídica qualificada é fundamental para restabelecer a verdade e garantir que a justiça prevaleça.