Mulheres Podem Ser Autoras ou Coautoras de Estupro? Entenda o Crime

Introdução: Desmistificando a Participação Feminina em Crimes Sexuais

A discussão sobre crimes sexuais é frequentemente permeada por estereótipos e pré-julgamentos. Um dos mais enraizados é a ideia de que o crime de estupro é uma violência praticada exclusivamente por homens contra mulheres. No entanto, o sistema jurídico brasileiro é claro e objetivo: qualquer pessoa, independentemente do gênero, pode ser autora, coautora ou partícipe de um crime sexual. Entender essa realidade é fundamental não apenas para a correta aplicação da lei, mas também para garantir o direito à ampla defesa de homens que são acusados injustamente, muitas vezes em cenários complexos e com dinâmicas que fogem ao senso comum.

O Código Penal, em seu artigo 213, define o estupro como o ato de constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. A lei não faz qualquer distinção de gênero para o autor do crime (sujeito ativo) ou para a vítima (sujeito passivo). Portanto, a resposta direta para a pergunta "mulher pode cometer estupro?" é sim. Este artigo foi criado para esclarecer, de forma técnica e acessível, como a participação feminina ocorre nesses crimes, como o processo funciona na prática e quais são os cuidados essenciais para quem se vê diante de uma acusação tão grave.

Como o Processo Jurídico Funciona na Prática

Entender as etapas de um processo criminal por estupro é o primeiro passo para uma defesa eficaz. A jornada é complexa e cada fase possui particularidades que exigem atenção técnica.

A Notícia do Crime e o Início da Investigação

Tudo geralmente começa com um registro de Boletim de Ocorrência em uma delegacia. A partir desse momento, a autoridade policial tem o dever de iniciar a apuração. As primeiras providências incluem ouvir a suposta vítima (cujas declarações são formalizadas em um termo), encaminhá-la para um exame de corpo de delito se houver vestígios e dar início ao Inquérito Policial. É nesta fase embrionária que muitas defesas são comprometidas pela falta de orientação jurídica.

A Fase de Investigação Policial

O Inquérito Policial é o procedimento conduzido pelo Delegado de Polícia para reunir elementos que apontem a materialidade (a prova da existência do crime) e a autoria (quem o cometeu). Durante a investigação, são realizadas diversas diligências, como:

  • Oitiva de testemunhas indicadas pela suposta vítima e pelo investigado.
  • Juntada de laudos periciais (exame de corpo de delito, laudos psicológicos).
  • Coleta de provas materiais, como vídeos, mensagens de celular e outros documentos.
  • Interrogatório do suspeito, momento crucial em que ele tem o direito de ser acompanhado por um advogado e de permanecer em silêncio.

A Ação Penal: Da Denúncia à Sentença

Concluído o inquérito, o delegado elabora um relatório e o envia ao Ministério Público. O promotor de justiça, ao analisar o caso, pode tomar três caminhos: solicitar o arquivamento (se não houver provas suficientes), pedir novas diligências ou, se estiver convencido da existência de indícios de autoria e materialidade, oferecer a denúncia à Justiça. Com o recebimento da denúncia pelo juiz, o investigado passa à condição de réu e o processo criminal se inicia. O processo judicial envolve a apresentação de defesa escrita, audiências para ouvir testemunhas de acusação e defesa, interrogatório do réu perante o juiz e, por fim, os debates orais entre acusação e defesa, que antecedem a sentença final (condenação ou absolvição).

A Participação da Mulher no Crime de Estupro: Autoria e Coautoria

A lei penal prevê que a responsabilidade criminal não se limita a quem executa diretamente a ação. Qualquer pessoa que contribui para o resultado pode ser responsabilizada. É o que se chama de concurso de pessoas.

Mulher como Autora Principal

Uma mulher pode ser a autora principal do crime de estupro. Isso ocorre quando ela, utilizando-se de violência (força física) ou grave ameaça (com uma arma, por exemplo), força um homem ou outra mulher a praticar um ato sexual. Outra hipótese comum é o estupro de vulnerável, previsto no artigo 217-A do Código Penal. Nesse caso, a vítima não tem o necessário discernimento para a prática do ato ou, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência. Pense em uma vítima desacordada por álcool ou drogas. A ação de praticar o ato sexual com essa pessoa, independentemente do gênero de quem a pratica, configura o crime.

Mulher como Coautora ou Partícipe

Esta é a forma mais frequente de participação feminina. A coautoria ocorre quando a mulher, em união de esforços e vontades com outra pessoa (geralmente um homem), pratica atos executórios do crime. Por exemplo, ela segura a vítima para que o homem pratique o ato sexual. Já a participação é uma contribuição de menor relevância, mas ainda assim criminosa. Por exemplo, a mulher que instiga o crime, empresta o local para que ele aconteça ou vigia a porta para evitar que sejam descobertos. Em todos esses cenários, ela responderá criminalmente, e sua pena será dosada de acordo com o grau de sua contribuição.

Provas e Elementos de Convicção Nesses Casos

Em crimes sexuais, que frequentemente ocorrem na clandestinidade, a prova é um desafio. A defesa de um acusado injustamente depende de uma análise crítica e técnica de todos os elementos.

  • Prova Testemunhal: A palavra da vítima tem grande relevância, mas não é absoluta. É fundamental que a defesa analise a coerência, a consistência e a ausência de contradições em seus depoimentos. Testemunhas que possam contextualizar a relação entre as partes ou os eventos do dia são essenciais.
  • Prova Pericial: O exame de corpo de delito é crucial para detectar lesões, material genético ou outros vestígios físicos. A ausência de vestígios, embora não descarte o crime, é um forte elemento para a defesa. Laudos psicológicos também podem ser utilizados, mas devem ser analisados com extremo rigor técnico.
  • Prova Digital: Mensagens de texto, áudios, registros de aplicativos de relacionamento e postagens em redes sociais são hoje provas indispensáveis. Elas podem demonstrar consentimento prévio, uma relação consensual ou até mesmo contradições na versão da suposta vítima.

Erros Comuns que Devem Ser Evitados pelo Acusado

Diante de uma acusação, o desespero pode levar a atitudes que prejudicam gravemente a defesa. É vital evitar:

  1. Falar com a polícia sem a presença de um advogado: Tudo o que for dito pode e será usado no processo. O direito ao silêncio é uma garantia constitucional e deve ser exercido até que se tenha uma estratégia de defesa clara.
  2. Tentar contato com a suposta vítima: Essa atitude pode ser interpretada como tentativa de coação ou intimidação, gerando até mesmo um pedido de prisão preventiva.
  3. Apagar conversas ou destruir provas: Além de ineficaz (pois muitos dados são recuperáveis), a destruição de provas gera uma presunção de culpa e pode configurar o crime de fraude processual.
  4. Ser passivo e acreditar que a justiça será feita sozinha: O sistema penal exige uma defesa ativa. A presunção de inocência precisa ser defendida com provas, argumentos técnicos e atuação diligente em todas as fases do processo.

Quando Procurar um Advogado Especialista?

A complexidade e a gravidade de uma acusação de crime sexual exigem mais do que um conhecimento genérico do direito. Um advogado especialista em direito criminal, com foco nesse tipo de caso, possui a experiência necessária para lidar com as particularidades do processo, como a análise de laudos periciais, a forma correta de inquirir testemunhas e a capacidade de construir uma narrativa defensiva sólida e respeitosa. O momento certo para procurar ajuda é imediatamente após tomar conhecimento de qualquer investigação ou acusação, por mais informal que pareça. A atuação de um especialista desde o inquérito policial é o fator que mais aumenta as chances de um resultado justo.

Conclusão: A Defesa Técnica como Garantia de Justiça

Sim, mulheres podem ser autoras e coautoras de estupro, e o sistema de justiça está preparado para processar e julgar esses casos. Contudo, a mesma lei que prevê a punição também garante a todo acusado o direito fundamental a uma defesa plena e técnica. Uma acusação de estupro carrega um estigma devastador, e a diferença entre uma condenação injusta e a absolvição de um inocente reside, quase sempre, na qualidade de sua defesa. A complexidade desses casos exige uma análise técnica e cuidadosa. Se você enfrenta uma acusação, buscar orientação jurídica especializada é o primeiro e mais importante passo para garantir que seus direitos sejam defendidos de forma justa e eficaz.